quinta-feira, 2 de junho de 2011

TEMPORALIDADES




As relações temporais que permeiam uma obra de arte são inúmeras – desde o tempo de produção, o tempo de fruição do espectador e a sua relação temporal com a sociedade.

O tempo pode ser instantâneo, tanto na sua produção quanto na sua fruição, como na obra de Gustave Le Gray. Alguns minutos para preparar o filme, um flash e o assombro de quem a olhava pela primeira vez. Tecnologia usada a favor da arte, os fotogramas de Le Gray foram os primeiros que se valeram do menor tempo de exposição, o que possibilitou uma maior nitidez as imagens, e com essa nitidez a captura instantânea do tempo – movimento.

Inquieto, assim é o tempo nas obras de Claude Monet e Gaetano Pescee. O primeiro com a sua A estação de Saint-Lazare” que nos transmite a inquietação do artista com suas pinceladas rápidas e largas, a rapidez em congelar o tempo que passava com suas luzes e sombras. O segundo e a sua UP Collection – poltronas fabricadas em material expansível apresentadas vazias, amorfas - nos trazem a inquietação do tempo/deslocamento, da produção massificada à espera fruitiva da forma porvir – por parte do consumidor/espectador.

Temos a Terra, o solo e as rochas, como símbolos da durabilidade material e como matéria prima na obra Robert Smithson, o artista que nos apresenta o tempo duradouro - não só na execução, mas também na maneira de apresentar a obra – a visão do píer em espiral nos faz refletir sobre a arte utilizando a terra como suporte, alterando seu panorama para sempre, e do tempo/deslocamento de sua fruição.

O que realmente encontramos na obra de Mira Schendel, com seus Trenzinhos - delicadas estruturas de papel de arroz arranjadas como varal? Simplesmente nos o não-ser, a quase anulação do tempo, do espaço, do material.

"Há uma concordância em entender o trabalho de Mira Schendel como um não-ser, uma entidade que não se fixa o suficiente para ser identificada, que não se estabiliza o bastante para ser isolada e nem se define nitidamente para ser conceitualizada. Até mesmo a materialidade essencial às coisas é subtraída. Próximo de um sopro, flatus. Quase nada, apenas o mínimo suficiente para ser, para não pesar, para não aparecer, para não perturbar. O mínimo para ser, quase não-sendo. Para ser apenas uma presença essencial. Um pouco mais que uma indefinição. Quanto mais potencializa sua presentificação, mais afirma sua ausência. Todos os modos enfáticos que apelam aos sentidos são por ele negados." VENANCIO FILHO, 1997


E qual é o tempo de produção e fruição de um sonho? Podemos nos fazer essa pergunta quando nos deparamos com Entr'acte de Rene Clair, com seu filme surrealista, Clair nos leva a uma viagem a relatividade do tempo, com a expectativa da morte - não só no seu sentido fisiológico, mas também em um âmbito social e temporal - quando nos apresenta o desvairado ballet da burguesia por uma Paris onirica

Instantâneo, inquieto, duradouro e acima de tudo relativo, assim é o tempo e assim ele se apresenta e nos é apresentado nas obras acima analisadas.



REFERÊNCIAS:

GASTALDONI. Dante, O Tempo e os Tempos na Fotografia.

VENANCIO FILHO, Paulo. A transparência misteriosa da explicação. In: SCHENDEL, Mira. Mira Schendel a forma volátil. Apresentação Helena Severo, Vanda Mangia Klabin; texto Sônia Salzstein, Paulo Venancio Filho, Célia Euvaldo. Rio de Janeiro: Centro de Arte Hélio Oiticica, 1997.




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